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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Estética nas HQs

Analisamos a questão das mudanças comportamentais separadamente justamente para dar mais ênfase a questão da estética própria do feminino antes de iniciar este tópico. Na realidade não existiram mudanças significativas na representação da estética feminina em mais de cem anos da Arte dos quadrinhos. Diferentemente do que ocorre no padrão comportamental, onde gastamos páginas de analise do histórico das personagens para chegar à conclusão das notáveis mudanças que ocorrem em paralelo com os padrões sociais, no nível da estética isso não procede.

Lógico, não devemos confundir, existem mudanças no que é considerado esteticamente mais próximo da beleza ideal, em outras palavras, o padrão de beleza da década de 1920 não é o mesmo do século XXI, existem diferenças neste nível de representação, mas em toda e qualquer época a figura da mulher é associada à estética do belo de seu tempo.


A figura ao lado é um bom exemplo a se observar. Ambos são retratos da super-heroína “Mulher-Maravilha”, porém datados de diferentes épocas. Na esquerda encontramos a figura da heroína em meados da década de 1940 e do lado direito sua versão mais atual. O leitor não precisa de ajuda para perceber que existe diferença em seu retrato, porém o que destacamos aqui é que em ambos os casos a Mulher-Maravilha está representando um ideal de beleza, posto o contexto social em que se insere.


Dessa forma percebe-se que o binômio “mulher-beleza” analisado no tópico acima sempre fez parte da representação da figura feminina na mídia dos quadrinhos, e que, salvo algumas mudanças no referente a padrões de beleza, a personagem mulher continua como principal representante dessa estética.

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Estética e Beleza

“A Beleza não conta com um emprego evidente; tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua. Apesar disso, a civilização não pode dispensá-la.” (S. Freud, “Futuro de uma ilusão / O mal-estar na civilização e outros trabalhos”, 2006)

A estética sempre entrou na lista de temas enigmáticos para muitos estudiosos de diferentes áreas. Se olharmos através da Antropologia a estética parece sempre ter sido parte da condição humana. Desde as pinturas rupestres contemporâneas ao Período Paleolítico já era possível identificar um processo em direção a uma certa estética nas imagens. A História da Arte também está como cúmplice neste projeto que demonstra que a busca por uma determinada forma, cor ou enfeite parece ter sempre sido parte inerente ao comportamento dos homens.

Mas o que nos interessa aqui não é discutir a fundo a origem da estética em si, mas sim analisar uma ligação bastante profunda que parece existir entre o sujeito feminino e a noção de beleza (estética do belo).

Exemplos salientando o poder resultante da ligação entre a beleza e a figura da mulher são inúmeros. Desde a sexualidade de Eva que capta a atenção do “demônio” e que depois seduz Adão levando ao Pecado Original na tradição bíblica, até a presença, por exemplo, de uma Deusa da Beleza (Afrodite) no campo mítico grego. O uso do adjetivo “belo” relacionando-se ao sujeito feminino parece uma relação tão natural quanto antiga na civilização ocidental. Cabe assim a questão se essa referência seria apenas construída a partir de um meio social ou se existe algo que realmente conecta intimamente o gênero feminino e a sua estética.

Em 1925 Freud escreve um texto de nome bastante explicativo por assim dizer: “Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença Anatômica entre os Sexos” e nele desenvolve a idéia da importância da anatomia na construção do psíquico do indivíduo, principalmente do superego. Nesse texto o psicanalista insere conceitos como a “inveja do pênis” que seria própria do sexo feminino. A menina ao não possuir referência anatômica visível de seu sexo (como a masculina) sofre uma ferida em seu narcisismo primário. Dessa maneira, como forma de compensação, o sujeito feminino iria supervalorizar tudo aquilo que lhe é visível, ou seja, seu corpo como um todo, sua estética por assim dizer.

“(...) o narcisismo primário, estruturante do Eu Ideal e matriz organizadora do Ideal do Eu, está relacionado a uma forma; é implicado por uma estética. Mas, disso já sabíamos pela formulação lacaniana acerca do estágio do espelho. O que se nos apresenta como novo é a forma, a estética como destino feminino, isto é: há um entrelaçamento entre a estética e a mulher desde o início de sua constituição psíquica e tal relação que é tão antiga quanto a formação de seus ideais, participa da construção de seu superego.(...)” (S. Medeiros, “O Belo e a Morte”, 2005)

Assim da mesma maneira que percebemos claramente a propagação deste pensamento (ligando estética e feminino) através de um meio social também encontramos na Psicanálise explicações que nos mostram a estreita conecção entre os dois termos desde as primeiras fases de desenvolvimento do indivíduo. Desta forma como resultado da adição dessas duas vertentes (difundida socialmente e intrínseca ao sujeito feminino) temos apenas uma potencialização da idéia inicial – a estética e o feminino andando juntos. A mulher que já possui por si só uma ligação com sua forma, ao receber informações, exemplos e idéias do meio social onde está inserida (tornando assim mais evidente sua conecção com a estética) tende a elevar ainda mais esse comportamento. Não é difícil perceber tal fato, basta observar quanto tempo uma mulher em média passa cuidando de sua aparência, tentando adequá-la a um padrão estipulado na sociedade como esteticamente belo.

Na sociedade atual vivemos o supra-sumo desta idéia do binômio mulher-beleza. A idéia de atração que o belo trás consigo prende a atenção do olhar, e numa sociedade onde as imagens ganham mais destaque do que nunca, um segundo da atenção do consumidor em potencial pode ser decisivo para o sucesso ou não de uma venda. Assim encontramos muito mais a figuras de mulheres do que de homens no meio da imagens contemporâneas agindo de duas formas: como identificação com um modelo para o público feminino e como objeto desejável para o público masculino.

Concluindo, numa sociedade onde a presença de mídias (principalmente visuais) é fato marcante, e sabendo a importância que o olhar assim adquire, é de fácil percepção entender a elevação exagerada da condição estética atual que exige um padrão quase impossível de se manter.

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